1. O prólogo de Os últimos Jedi

    Prólogo

    Sob a fresca areia de Tatooine, Luke Skywalker observava o horizonte ao lado de sua esposa. O céu ainda exibia as cores alaranjadas do entardecer, mas as primeiras estrelas já se mostravam. Luke as observava, buscando por algo que sabia que já não estava mais lá.

    – O que você acha que viu? – Camie perguntou.

    Ele percebeu a entonação de sua voz – mas, prestando bastante atenção, também ouviu um toque de aborrecimento.

    – Destróier Estelar. Eu acho.
    – Então eu acredito em você – ela disse, pousando a mão em seu ombro. – Você sempre conseguiu identificar um. Até mesmo ao meio-dia.

    Luke sorriu, lembrando-se daquele dia, num passado distante, quando chamou seus amigos na Estação Tosche para observarem duas naves em órbita logo acima de suas cabeças. Camie não acreditara nele – ela olhara através dos macrobinóculos antes de devolvê-los com desdém e buscar refúgio dos escaldantes sóis gêmeos. Fixer também não acreditara nele. Nem Biggs.

    Mas ele estava certo.

    Seu sorriso minguou diante da lembrança de Biggs Darklighter, que havia deixado Tatooine e morrido em algum lugar extraordinariamente longínquo. Biggs, que fora seu primeiro amigo. E, aparentemente, o único.

    Sua mente recuou daquele pensamento, tão rápido quanto sua mão recuaria se tocasse o metal quente de um vaporizador ao meio-dia.

    – Imagino o que o Império veio fazer por aqui – ele disse, vasculhando o céu novamente. Reabastecer a guarnição de Mos Eisley não era tarefa para uma nave de combate do tamanho de um Destróier Estelar. Hoje em dia, com a galáxia em paz, nem mesmo era preciso uma nave de combate.

    – Seja o que for, não tem nada a ver com a gente – Camie disse. – Não é mesmo?

    – É claro – Luke respondeu, seus olhos vasculhando por instinto o perímetro da fazenda. Uma cautela assim não era necessária – nenhum Nômade Tusken fora visto naqueles lados de Anchorhead em duas décadas –, mas velhos hábitos não morrem facilmente.

    Os Tusken se foram – não restou nada deles, a não ser ossos na areia. Por alguma razão, isso o entristeceu.

    – Nós cumprimos nossa meta com o Império nos últimos cinco anos – Camie disse. – E pagamos a taxa da água para Jabba. Não temos dívidas com ninguém. Não fizemos nada.

    – Não fizemos nada – Luke concordou, embora soubesse que isso não era garantia de segurança. Muitas coisas aconteciam com pessoas que não faziam nada – coisas que nunca mais eram discutidas, pelo menos não por alguém com juízo.

    Sua mente voltou para aqueles dias que tanto tentava esquecer. Os droides, a mensagem – um fragmento holográfico no qual uma jovem da nobreza implorava pela ajuda de Obi-Wan Kenobi.

    Deixe o passado para trás. Era isso que Camie sempre dizia. Mas, ao contemplar a escuridão, Luke mais uma vez descobriu que não podia fazer isso.

    O droide astromec havia fugido durante a noite enquanto Luke jantava com sua tia e seu tio. Temendo a fúria do Tio Owen, Luke decidira se arriscar e deixar a fazenda, apesar da ameaça dos Tusken.

    Mas o Povo da Areia não estava à espreita naquela noite. Luke encontrara o astromec fugitivo e o trouxera de volta para a fazenda, empurrando o landspeeder nos últimos vinte metros para não acordar Owen e Beru. Luke sorriu tristemente, pensando – como sempre – sobre tudo o que poderia ter dado errado. Ele poderia ter facilmente morrido, acabando como mais um tolo fazendeiro de umidade morto pela noite de Tatooine e suas criaturas. Mas ele teve sorte – e depois ainda mais sorte no dia seguinte. Os stormtroopers haviam chegado após Luke trabalhar com os teimosos condensadores dos morros ao sul – fonte de irritação de Owen e Beru naquela época, fonte de irritação de Luke e Camie agora.

    O sargento estava fazendo exigências antes mesmo de descer das costas de seu dewback. Um bando de sucateiros vendeu dois droides para vocês. Traga-os aqui. Agora. Luke quase precisou arrastar os droides para fora da garagem. O astromec assobiava sem parar, enquanto o droide de protocolo repetia que estava se entregando. Eles fi caram sob o calor implacável por mais de uma hora enquanto os Imperiais vasculhavam os bancos de memória dos droides, com os stormtroopers recusando secamente o pedido de Owen de ao menos deixar Beru se sentar debaixo da sombra.

    Foi quando o velho Ben Kenobi aparecera, saindo do meio do deserto com sua empoeirada túnica marrom. Ele falara com os stormtroopers com um sorriso no rosto, como se fossem velhos amigos encontrando-se na feira de Anchorhead. Ele lhes dissera, com um discreto gesto da mão, que a identifi cação de Luke estava errada – o sobrenome do garoto não era Skywalker, mas Lars.

    – É isso mesmo – Owen dissera, voltando os olhos para Beru. – Luke Lars.

    Ben continuara, dizendo aos stormtroopers que não havia necessidade de levar Owen para interrogá-lo. Mas eles recusaram o pedido e forçaram o tio de Luke para dentro de um transporte de tropas junto com os droides, com o astromec soltando um último guincho desesperado antes de a escotilha fechar.

    Eles libertaram Owen três dias depois, e ele permanecera pálido e silencioso durante a longa volta de Mos Eisley. Luke levara semanas para juntar coragem e perguntar se o Império ia indenizá-los. Owen respondeu irritado que esquecesse aquilo, depois prendeu as mãos sob os cotovelos – não antes de Luke perceber que tremiam.

    Um meteoro queimou na atmosfera acima, tirando Luke de seu devaneio.

    – Sobre o que está pensando? – Camie perguntou, e sua voz soou desconfiada.
    – Que estou velho – ele respondeu, tocando a barba. – Velho e grisalho.
    – Não é só você – ela disse, passando as mãos sobre os próprios cabelos. Ele ofereceu um sorriso, mas ela olhava para o céu noturno.

    Depois daquele dia, ninguém nunca mais viu o velho Ben. Mas havia rumores – sussurros sobre uma nave de combate voando baixo sobre o Deserto de Jundland, e depois um fogo durante a noite. Em Anchorhead, diziam que eram apenas boatos de cantina, mas Luke não deixava de se perguntar. As tropas na fazenda foram reais. Assim como as tropas que invadiram a fazenda dos Darklighter para levar a família de Biggs. Os Darklighter nunca retornaram – a fazenda fora pilhada pelos Jawas e o Povo da Areia, depois deixada para ser consumida pela areia.

    Semanas se transformaram em meses, meses em anos, anos em décadas. Luke se mostrou bom com máquinas, tinha um instinto para a insana complexidade da agricultura de Tatooine e talento para conseguir resultados, fosse na barganha com os Jawas, fosse escolhendo locais para os vaporizadores. Em Anchorhead, o garoto que um dia fora chamado de Minhoca ganhou um novo apelido: Luke Sortudo.

    Camie também percebera isso – assim como percebera que Fixer falava muito e fazia pouco. Ela se casara com Luke e eles se tornaram sócios de Owen e Beru antes de herdarem a fazenda. Não tiveram fi lhos – uma dor que se transformara em uma tristeza que eles não mais admitiam sentir –, mas trabalharam duro e tiveram sucesso, construindo uma vida tão confortável quanto Tatooine permitia. Mas Luke nunca deixara de sonhar sobre a garota que implorou pela ajuda de Obi-Wan. Mesmo há poucos dias ele acordara com um sobressalto, certo de que o astromec ainda esperava na garagem, fi nalmente disposto a transmitir toda a mensagem. Era importante que Luke ouvisse tudo – havia algo que ele precisava fazer. Algo que estava destinado a fazer.

    Após os stormtroopers levarem os droides, Luke achou que nunca descobriria a identidade da misteriosa garota. Mas estava errado. A HoloNet passou semanas repercutindo a história, terminando com a notícia de que, antes de sua execução, a Princesa Leia Organa havia se desculpado por seu passado de traição e pedido unidade para a galáxia. Curiosamente, o Império nunca mostrou imagens dessas declarações, deixando Luke apenas com o breve vislumbre que teve da princesa – e imaginando que tipo de missão desesperada foi capaz de fazê-la buscar um velho eremita em Tatooine.

    Fosse o que fosse, a missão falhara. Alderaan agora era apenas um campo de destroços, junto com Mon Cala e Chandrila – planetas destruídos pela estação espacial que havia cauterizado as infecções do Separatismo e da rebelião, fi nalmente trazendo paz à galáxia. Ou ao menos o fi m dos confl itos. Era a mesma coisa, ou quase.

    Luke percebeu que Camie o chamava, e mais de uma vez.

    – Odeio quando você fi ca assim – ela disse.
    – Assim como?
    – Você sabe. Pensando que alguma coisa deu errado. Que você foi passado para trás e tudo isto é um grande erro. Que você deveria ter seguido Tank e Biggs e se matriculado na Academia como tanto queria. Que você deveria estar muito longe daqui.
    – Camie...
    – Longe de mim – ela disse quase em um sussurro, desviando o rosto e cruzando os braços sobre o peito.
    – Você sabe que não me sinto assim. – Luke pousou as mãos sobre os ombros de sua esposa e tentou ignorar a maneira como ela enrijeceu sob seu toque. – Nós criamos uma boa vida, e é aqui mesmo que eu deveria estar. Agora vamos. Está ficando frio.

    Camie não disse nada, mas deixou Luke a conduzir para o domo que marcava a entrada da fazenda. Sob o portal, Luke hesitou e olhou uma última vez para dentro da noite. Mas o Destróier Estelar – se foi isso mesmo que viu – não retornara. Após um momento, ele deu as costas ao céu vazio. Luke acordou com um sobressalto, instintivamente erguendo o corpo. Sua mão mecânica rangeu em protesto, ecoando o zumbido dos insetos que viviam nos gramados de Ahch-To.

    Ele tentou afastar o sonho enquanto vestia sua túnica e seu casaco impermeável. Luke abriu a porta de metal de sua cabana, depois a fechou silenciosamente. A aurora já ia nascendo, com a palidez do dia como uma pérola no horizonte, flutuando acima do escuro vazio do mar. Os oceanos de Ahch-To ainda o impressionavam – uma infinidade de água que podia passar de calma e serena para um caos incontrolável a qualquer momento. Toda aquela água ainda parecia impossível de existir – ao menos sob aquela perspectiva, ele ainda se sentia um filho dos desertos de Tatooine.

    Muito abaixo da encosta, ele sabia, as Cuidadoras logo se ergueriam para começarem outro dia, como fizeram por gerações e gerações. Para elas, havia trabalho a fazer, mas também para Luke – para as Cuidadoras, por causa de uma barganha antiga; para Luke, por sua própria escolha.

    Ele passara a juventude detestando as tarefas em Tatooine; agora essas tarefas davam estrutura aos seus dias em Ahch-To. Havia leite a ser ordenhado, peixes a pescar e uma pedra solta para se colocar no lugar.

    Mas não agora. Luke lentamente subiu os degraus até alcançar o gramado que permitia uma ampla visão do oceano. Ele estremeceu – o verão já estava quase no fi m, e aquele sonho ainda o acompanhava. Não foi um sonho qualquer, e você sabe disso. Luke puxou o capuz da túnica com sua mão mecânica, passando a de carne e osso pela barba. Ele queria discutir consigo mesmo, mas sabia que era melhor não. Era a Força que agia ali – ela havia se disfarçado de sonho para vencer as defesas que ele havia erguido. Mas seria o sonho uma promessa? Um alerta? Ou os dois? Tudo está prestes a mudar. Algo está se aproximando.

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  2. O 1º capítulo de Restaura-me

    Juliette

    Não acordo mais gritando. Não sinto náusea ao ver sangue. Não tremo antes de apertar o gatilho de uma arma. Nunca mais pedirei desculpas por sobreviver. E ainda assim… Fico imediatamente assustada com o barulho de uma porta se abrindo bruscamente. Disfarço um arquejo, dou meia-volta e, por força do hábito, descanso as mãos no punho de uma semiautomática no coldre preso à lateral do meu corpo.

    – J, temos um sério problema.

    Kenji me encara, olhos estreitados, mãos na cintura, camiseta justa no peito. Esse é o Kenji furioso. O Kenji preocupado. Já se passaram 16 dias desde que tomamos o Setor 45, desde que me coroei comandante suprema do Restabelecimento, e tudo tem permanecido em silêncio. Em um silêncio enervante. Todos os dias, acordo tomada em parte por terror, em parte por satisfação, ansiosamente aguardando os ataques inevitáveis das nações inimigas que desafiarão minha autoridade e declararão guerra contra nós. E agora parece que esse momento finalmente chegou. Então respiro fundo, estalo o pescoço e olho nos olhos de Kenji.

    – Fale.

    Ele aperta os lábios. Olha para o teto – Então… Certo… A primeira coisa que precisa saber é que o que aconteceu não foi culpa minha, entendeu? Eu só estava tentando ajudar.

    Hesito. Franzo o cenho. – O quê?

    – Quer dizer, eu sabia que aquele idiota era extremamente dramático, mas o que aconteceu ultrapassou o nível do ridículo…

    – Perdão, mas… o quê? – Afasto a mão da arma; sinto meu corpo se acalmar. – Kenji, do que você está falando? Não é da guerra?

    – Guerra? O quê?! J, você não está presentado atenção? Seu namorado está tendo um acesso de raiva absurdo agora e você precisa acalmar aquele bundão antes que eu mesmo faça isso.

    Irritada, solto o ar em meus pulmões.

    – Você está falando sério? Outra vez esta bobagem? Pelo amor de Deus, Kenji! – Solto o coldre preso em minhas costas e jogo-o para trás, na cama. – O que foi que você fez desta vez?

    – Está vendo? – Ele aponta para mim. – Está vendo? Por que você se apressa tanto em julgar, hein, princesa? Por que parte do pressuposto de que fui eu quem fez algo errado? Por que eu? – Cruza os braços na altura do peito, baixa a voz e continua: – E, sabe, para dizer a verdade, já faz algum tempo que quero conversar com você, porque tenho a sensação de que, como comandante suprema, não pode demonstrar tratamento preferencial assim, mas claramente…

    De repente, Kenji fica paralisado.

    Ao ouvir o ranger da porta, arqueia as sobrancelhas; um leve clique e seus olhos se arregalam; um farfalhar abafado indicando movimento e, de um segundo para o outro, o cano de uma arma é pressionado contra a parte de trás da sua cabeça. Kenji me encara. De seus lábios não sai nenhum som enquanto ele articula a palavra psicopata repetidas vezes. De onde está, o psicopata em questão pisca um olho para mim, sorrindo como se não estivesse segurando uma arma contra a cabeça de um amigo em comum. Consigo disfarçar a risada.

    – Continue – Warner ordena, ainda sorrindo. – Por favor, conte o que exatamente ela fez na posição de líder para decepcioná-lo.

    – Ei… – Kenji ergue os braços para fingir que está se rendendo.

    – Eu nunca disse que ela me decepcionou em nada, está bem? E você claramente exagera em suas reações…

    Warner bate a arma na lateral da cabeça de Kenji.

    – Idiota.

    Kenji dá meia-volta. Puxa a arma da mão de Warner.

    – Qual é o seu problema, cara? Pensei que estivéssemos bem.

    – Estávamos – Warner retruca friamente. – Até você encostar no meu cabelo.

    – Você me pediu para cortá-lo.

    – Eu não falei nada disso, não, senhor! Pedi para você aparar as pontas!

    – E foi isso que fiz.

    – Isto aqui – Warner diz, virando-se para mim para que eu possa avaliar os danos. – Isto não é aparar as pontas, seu idiota incompetente…

    Fico boquiaberta. A parte traseira da cabeça de Warner está uma bagunça de fios cortados dos mais diversos tamanhos combinados com outras áreas completamente raspadas. Kenji se arrepia ao olhar o próprio trabalho. E pigarreia.

    – Bem… – diz, enfiando as mãos nos bolsos. – Assim, tipo…Não importa, cara. Beleza é uma coisa subjetiva…

    Warner aponta outra arma para ele.

    – Ei! – Kenji grita. – Não vou aceitar esse tipo de relacionamento abusivo, entendeu? – Vira-se para Warner. – Eu não topei participar para ter que lidar com esta merda.

    Warner lança um olhar fulminante e Kenji recua, saindo do quarto antes que Warner tenha outra chance de reagir. E então, justamente quando deixo escapar um suspiro de alívio, Kenji passa outra vez a cabeça pela porta e provoca:

    – Para dizer a verdade, achei que o corte ficou uma gracinha.

    E Warner bate a porta na cara dele. Bem-vindo à minha nova vida como comandante suprema do Restabelecimento.

    Warner continua olhando para a porta enquanto exala, liberando a tensão de seus ombros, e consigo enxergar ainda mais claramente a bagunça que Kenji fez. Os cabelos espessos, lindos e dourados de Warner – um traço marcante de sua beleza – agora picotados por mãos descuidadas.

    Um desastre.

    – Aaron – chamo baixinho.

    Ele parece cabisbaixo.

    – Venha aqui comigo.

    Ele dá meia-volta, espiando-me de canto de olho, como se tivesse feito alguma coisa de que se envergonhar. Empurro as armas que estão sobre a cama, abrindo espaço para que se ajeite ao meu lado. Com um suspiro entristecido, ele afunda o corpo no colchão.

    – Estou horroroso – resmunga baixinho.

    Sorrindo, nego com a cabeça e toco sua bochecha.

    – Por que você o deixou cortar seu cabelo?

    Agora Warner olha para mim com olhos redondos, verdes e perplexos.

    – Você me pediu para passar um tempo com ele.

    Dou uma risada escandalosa.

    – E só por isso você deixou Kenji cortar seu cabelo?

    – Eu não deixei ninguém cortar meu cabelo – insiste, fechando a cara. – Foi… – hesita. – Foi um gesto de camaradagem. Um ato de confiança que já vi ser praticado entre meus soldados. De todo modo… – Ele vira o rosto antes de prosseguir: – Não tenho nenhuma experiência em fazer amigos e criar amizades.

    – Bem… Nós somos amigos, não somos? Minhas palavras o fazem sorrir.

    – Hein? – Cutuco-o. – Isso é bom, não é? Você está aprendendo a ser mais gentil com as pessoas.

    – Sim, bem, eu não quero ser mais gentil com as pessoas. Não combina comigo.

    – Acho que combina muito bem com você – retruco, com um sorriso enorme no rosto. – Eu adoro quando você é gentil.

    – Para você, é fácil falar. – Warner quase dá risada. – Mas ser gentil não é algo que acontece naturalmente para mim, meu amor.

    Você terá de ser paciente com o meu progresso.

    Seguro sua mão.

    – Não tenho a menor ideia do que está falando. Para mim, você é totalmente gentil.

    Warner nega com a cabeça.

    – Sei que prometi fazer um esforço para ser mais bondoso com seus amigos, e continuarei me esforçando neste sentido, mas espero não tê-la levado a acreditar que sou capaz de algo impossível.

    – O que quer dizer com isso?

    – Só estou dizendo que espero não decepcioná-la. Eu consigo, se pressionado, produzir algum grau de calor humano, mas você precisa saber que não tenho interesse em tratar ninguém da maneira como a trato. Isto aqui – diz, tocando o ar entre nós – é uma exceção a uma regra muito dura. – Seus olhos agora focam meus lábios; suas mãos tocam meu pescoço. – Isto… Isto é algo muito, muito incomum.

    Eu paro.

    Paro de respirar, de falar, de pensar…

    Warner mal me tocou e meu coração já está acelerado; lembranças se apoderam de mim, escaldam-me em suas ondas; o peso de seu corpo contra o meu; o sabor de sua pele; o calor de seu toque e suas arfadas desesperadas em busca de ar e as coisas que ele me falou no escuro. Sou invadida por leve desejo e forço-me a afastar a sensação. Isso ainda é tão novo, o toque dele, a pele dele, o cheiro dele. Tão novo, tão novo e tão incrível…Warner sorri, inclina a cabeça; imito o movimento e, com uma leve lufada de ar, seus lábios se entreabrem e eu fico parada, meus pulmões quase saltando pela boca, meus dedos segurando sua camisa e ansiando pelo que vem depois disso até que ele diz:

    – Sabe, vou ter que raspar a cabeça.

    E se afasta.

    Pisco, perplexa, e Warner ainda não está me beijando.

    – E, sinceramente, tenho esperanças de que você continue me amando quando eu voltar – conclui.

    Ele então se levanta e vai embora e eu conto em uma das mãos o número de homens que matei e me impressiono com quão pouca ajuda essas mortes me deram para manter o controle na presença de Warner. Assinto com a cabeça quando ele se despede com um aceno, reúno meu bom senso de onde o abandonei e caio para trás na cama, a cabeça girando, as complicações de guerra e paz dominando a minha mente. Não pensei que seria exatamente fácil ser líder, mas acho que acreditei que seria mais fácil que isso: Pego-me atormentada por dúvidas a todo momento, dúvidas sobre as decisões que tomei. Fico furiosamente surpresa toda vez que um soldado segue minhas ordens.

    Estou cada vez mais aterrorizada com a possibilidade de que teremos – de que eu terei – de matar muitos, muitos mais antes que esse mundo se acalme. Mas acho que é o silêncio, mais do que qualquer outra coisa, que tem me deixado abalada. Já se passaram 16 dias. Fiz discursos sobre o que está por vir, sobre nossos planos para o futuro; fizemos homenagens às vidas perdidas na batalha e estamos nos saindo bem em nossas promessas de implementar mudanças.

    Castle, fiel à sua palavra, já está trabalhando duro, tentando enfrentar os problemas de agricultura, irrigação e, o mais urgente, buscando a melhor forma de fazer a transição dos civis para fora dos complexos. No entanto, isso será feito em estágios; será uma construção lenta e cuidadosa – uma luta pelo planeta, uma luta que pode durar um século. Acho que todos entendemos essa parte. E se eu só precisasse me concentrar nos civis, não estaria tão preocupada. Contudo, fico tensa porque sei muito bem que nada pode ser feito para consertar esse mundo se passarmos as próximas várias décadas em guerra. Mesmo assim, sinto-me pronta para lutar. Não é o que quero, mas irei tranquila para a guerra se ela for necessária para promover mudanças. Só queria que fosse simples. Neste exato momento, meu maior problema também é o mais confuso: Para lutar uma guerra é preciso haver inimigos, e parece que eu não consigo encontrar nenhum. Nos 16 dias desde que atirei na testa de Anderson, não enfrentei nenhuma oposição. Ninguém tentou me prender. Nenhum comandante supremo me desafiou.

    Dos 544 outros setores existentes só neste continente, nenhum me insultou, declarou guerra ou falou mal de mim. Ninguém protestou; as pessoas não promoveram nenhum motim. Por algum motivo, o Restabelecimento está jogando o meu jogo. Fingindo jogá-lo. E isso me irrita muito, demais. Estamos em um impasse estranho, parados em posição neutra enquanto quero desesperadamente fazer mais. Mais pelo povo do Setor 45, mais pela América do Norte, mais pelo mundo como um todo. Mas esse estranho silêncio nos deixou desequilibrados.

    Tínhamos certeza de que, com Anderson morto, os outros 15 comandantes supremos se levantariam – que enviariam seus exércitos para nos destruir – para me destruir. Em vez disso, os líderes do mundo deixaram clara a nossa insignificância: estão nos ignorando como ignorariam uma mosca, prendendo-nos debaixo de um copo onde ficamos livres para zumbir quanto quisermos, para bater nossas asas quebradas nas paredes somente pelo tempo que o oxigênio durar. O Setor 45 me deixou livre para fazer o que eu quiser; recebemos autonomia e autoridade para revisar nossa infraestrutura sem qualquer interferência. Todos os demais lugares – e todas as demais pessoas – estão fingindo que nada no mundo mudou. Nossa revolução aconteceu em um vácuo. Nossa vitória subsequente foi reduzida a algo tão pequeno que talvez nem mesmo exista.

    Jogos psicológicos.

    Castle sempre dá as caras, traz conselhos. Foi sugestão dele que eu fosse proativa – que me fortalecesse para controlar a situação. Em vez de simplesmente esperar ansiosa e na defensiva, eu deveria agir, ele disse. Deveria marcar presença. Reivindicar meu poder, ele disse. Ocupar um lugar na mesa de negociação. E tentar formar alianças antes de dar início a ataques. Manter contato com os 5 outros comandantes supremos espalhados pelo mundo. Afinal, eu posso falar pela América do Norte, mas e o resto do mundo? E a América do Sul? Europa? Ásia? África? Oceania? Promova uma conferência entre líderes internacionais, ele disse. Converse. Busque primeiro a paz, ele disse.

    – Eles devem estar morrendo de curiosidade – Castle me falou. – Uma menina de dezessete anos assumindo o controle da América do Norte? Uma adolescente que mata Anderson e se declara governante deste continente? Senhorita Ferrars, você precisa saber que possui um enorme poder neste momento! Use-o a seu favor!

    – Eu? – repliquei impressionada. – Que poder tenho eu?

    Castle suspirou.

    – Certamente, é muito corajosa para a sua idade, senhorita Ferrars, mas sinto por ver sua juventude tão intrinsicamente ligada à inexperiência. Vou tentar colocar de maneira clara: você tem uma força sobre-humana, uma pele quase invencível, um toque letal, só dezessete anos e, sozinha, derrubou o déspota desta nação. E ainda assim duvida que pode ser capaz de intimidar o mundo?

    Suas palavras me fizeram estremecer.

    – Velhos hábitos, Castle – respondi baixinho. – Hábitos ruins. Você está certo, obviamente. É claro que está certo.

    Ele me olhou diretamente nos olhos.

    – Precisa entender que o silêncio coletivo e unânime de seus inimigos não é nenhuma coincidência. Eles certamente estão em contato uns com os outros, certamente concordaram em adotar essa abordagem. Porque estão esperando para ver o que você fará a seguir. – Castle balançou a cabeça. – Estão aguardando seu próximo movimento, senhorita Ferrars. E imploro que faça um bom movimento.

    Então, estou aprendendo.

    Fiz o que ele sugeriu e 3 dias atrás enviei uma nota por Delalieu e fiz contato com os 5 outros comandantes supremos do Restabelecimento. Convidei-os para um encontro aqui, no Setor 45, em uma conferência de líderes internacionais no próximo mês.

    Exatamente 15 minutos antes de Kenji entrar em meu quarto, eu havia recebido a primeira resposta.
    A Oceania concordou.

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