Prólogo

Sob a fresca areia de Tatooine, Luke Skywalker observava o horizonte ao lado de sua esposa. O céu ainda exibia as cores alaranjadas do entardecer, mas as primeiras estrelas já se mostravam. Luke as observava, buscando por algo que sabia que já não estava mais lá.

– O que você acha que viu? – Camie perguntou.

Ele percebeu a entonação de sua voz – mas, prestando bastante atenção, também ouviu um toque de aborrecimento.

– Destróier Estelar. Eu acho.
– Então eu acredito em você – ela disse, pousando a mão em seu ombro. – Você sempre conseguiu identificar um. Até mesmo ao meio-dia.

Luke sorriu, lembrando-se daquele dia, num passado distante, quando chamou seus amigos na Estação Tosche para observarem duas naves em órbita logo acima de suas cabeças. Camie não acreditara nele – ela olhara através dos macrobinóculos antes de devolvê-los com desdém e buscar refúgio dos escaldantes sóis gêmeos. Fixer também não acreditara nele. Nem Biggs.

Mas ele estava certo.

Seu sorriso minguou diante da lembrança de Biggs Darklighter, que havia deixado Tatooine e morrido em algum lugar extraordinariamente longínquo. Biggs, que fora seu primeiro amigo. E, aparentemente, o único.

Sua mente recuou daquele pensamento, tão rápido quanto sua mão recuaria se tocasse o metal quente de um vaporizador ao meio-dia.

– Imagino o que o Império veio fazer por aqui – ele disse, vasculhando o céu novamente. Reabastecer a guarnição de Mos Eisley não era tarefa para uma nave de combate do tamanho de um Destróier Estelar. Hoje em dia, com a galáxia em paz, nem mesmo era preciso uma nave de combate.

– Seja o que for, não tem nada a ver com a gente – Camie disse. – Não é mesmo?

– É claro – Luke respondeu, seus olhos vasculhando por instinto o perímetro da fazenda. Uma cautela assim não era necessária – nenhum Nômade Tusken fora visto naqueles lados de Anchorhead em duas décadas –, mas velhos hábitos não morrem facilmente.

Os Tusken se foram – não restou nada deles, a não ser ossos na areia. Por alguma razão, isso o entristeceu.

– Nós cumprimos nossa meta com o Império nos últimos cinco anos – Camie disse. – E pagamos a taxa da água para Jabba. Não temos dívidas com ninguém. Não fizemos nada.

– Não fizemos nada – Luke concordou, embora soubesse que isso não era garantia de segurança. Muitas coisas aconteciam com pessoas que não faziam nada – coisas que nunca mais eram discutidas, pelo menos não por alguém com juízo.

Sua mente voltou para aqueles dias que tanto tentava esquecer. Os droides, a mensagem – um fragmento holográfico no qual uma jovem da nobreza implorava pela ajuda de Obi-Wan Kenobi.

Deixe o passado para trás. Era isso que Camie sempre dizia. Mas, ao contemplar a escuridão, Luke mais uma vez descobriu que não podia fazer isso.

O droide astromec havia fugido durante a noite enquanto Luke jantava com sua tia e seu tio. Temendo a fúria do Tio Owen, Luke decidira se arriscar e deixar a fazenda, apesar da ameaça dos Tusken.

Mas o Povo da Areia não estava à espreita naquela noite. Luke encontrara o astromec fugitivo e o trouxera de volta para a fazenda, empurrando o landspeeder nos últimos vinte metros para não acordar Owen e Beru. Luke sorriu tristemente, pensando – como sempre – sobre tudo o que poderia ter dado errado. Ele poderia ter facilmente morrido, acabando como mais um tolo fazendeiro de umidade morto pela noite de Tatooine e suas criaturas. Mas ele teve sorte – e depois ainda mais sorte no dia seguinte. Os stormtroopers haviam chegado após Luke trabalhar com os teimosos condensadores dos morros ao sul – fonte de irritação de Owen e Beru naquela época, fonte de irritação de Luke e Camie agora.

O sargento estava fazendo exigências antes mesmo de descer das costas de seu dewback. Um bando de sucateiros vendeu dois droides para vocês. Traga-os aqui. Agora. Luke quase precisou arrastar os droides para fora da garagem. O astromec assobiava sem parar, enquanto o droide de protocolo repetia que estava se entregando. Eles fi caram sob o calor implacável por mais de uma hora enquanto os Imperiais vasculhavam os bancos de memória dos droides, com os stormtroopers recusando secamente o pedido de Owen de ao menos deixar Beru se sentar debaixo da sombra.

Foi quando o velho Ben Kenobi aparecera, saindo do meio do deserto com sua empoeirada túnica marrom. Ele falara com os stormtroopers com um sorriso no rosto, como se fossem velhos amigos encontrando-se na feira de Anchorhead. Ele lhes dissera, com um discreto gesto da mão, que a identifi cação de Luke estava errada – o sobrenome do garoto não era Skywalker, mas Lars.

– É isso mesmo – Owen dissera, voltando os olhos para Beru. – Luke Lars.

Ben continuara, dizendo aos stormtroopers que não havia necessidade de levar Owen para interrogá-lo. Mas eles recusaram o pedido e forçaram o tio de Luke para dentro de um transporte de tropas junto com os droides, com o astromec soltando um último guincho desesperado antes de a escotilha fechar.

Eles libertaram Owen três dias depois, e ele permanecera pálido e silencioso durante a longa volta de Mos Eisley. Luke levara semanas para juntar coragem e perguntar se o Império ia indenizá-los. Owen respondeu irritado que esquecesse aquilo, depois prendeu as mãos sob os cotovelos – não antes de Luke perceber que tremiam.

Um meteoro queimou na atmosfera acima, tirando Luke de seu devaneio.

– Sobre o que está pensando? – Camie perguntou, e sua voz soou desconfiada.
– Que estou velho – ele respondeu, tocando a barba. – Velho e grisalho.
– Não é só você – ela disse, passando as mãos sobre os próprios cabelos. Ele ofereceu um sorriso, mas ela olhava para o céu noturno.

Depois daquele dia, ninguém nunca mais viu o velho Ben. Mas havia rumores – sussurros sobre uma nave de combate voando baixo sobre o Deserto de Jundland, e depois um fogo durante a noite. Em Anchorhead, diziam que eram apenas boatos de cantina, mas Luke não deixava de se perguntar. As tropas na fazenda foram reais. Assim como as tropas que invadiram a fazenda dos Darklighter para levar a família de Biggs. Os Darklighter nunca retornaram – a fazenda fora pilhada pelos Jawas e o Povo da Areia, depois deixada para ser consumida pela areia.

Semanas se transformaram em meses, meses em anos, anos em décadas. Luke se mostrou bom com máquinas, tinha um instinto para a insana complexidade da agricultura de Tatooine e talento para conseguir resultados, fosse na barganha com os Jawas, fosse escolhendo locais para os vaporizadores. Em Anchorhead, o garoto que um dia fora chamado de Minhoca ganhou um novo apelido: Luke Sortudo.

Camie também percebera isso – assim como percebera que Fixer falava muito e fazia pouco. Ela se casara com Luke e eles se tornaram sócios de Owen e Beru antes de herdarem a fazenda. Não tiveram fi lhos – uma dor que se transformara em uma tristeza que eles não mais admitiam sentir –, mas trabalharam duro e tiveram sucesso, construindo uma vida tão confortável quanto Tatooine permitia. Mas Luke nunca deixara de sonhar sobre a garota que implorou pela ajuda de Obi-Wan. Mesmo há poucos dias ele acordara com um sobressalto, certo de que o astromec ainda esperava na garagem, fi nalmente disposto a transmitir toda a mensagem. Era importante que Luke ouvisse tudo – havia algo que ele precisava fazer. Algo que estava destinado a fazer.

Após os stormtroopers levarem os droides, Luke achou que nunca descobriria a identidade da misteriosa garota. Mas estava errado. A HoloNet passou semanas repercutindo a história, terminando com a notícia de que, antes de sua execução, a Princesa Leia Organa havia se desculpado por seu passado de traição e pedido unidade para a galáxia. Curiosamente, o Império nunca mostrou imagens dessas declarações, deixando Luke apenas com o breve vislumbre que teve da princesa – e imaginando que tipo de missão desesperada foi capaz de fazê-la buscar um velho eremita em Tatooine.

Fosse o que fosse, a missão falhara. Alderaan agora era apenas um campo de destroços, junto com Mon Cala e Chandrila – planetas destruídos pela estação espacial que havia cauterizado as infecções do Separatismo e da rebelião, fi nalmente trazendo paz à galáxia. Ou ao menos o fi m dos confl itos. Era a mesma coisa, ou quase.

Luke percebeu que Camie o chamava, e mais de uma vez.

– Odeio quando você fi ca assim – ela disse.
– Assim como?
– Você sabe. Pensando que alguma coisa deu errado. Que você foi passado para trás e tudo isto é um grande erro. Que você deveria ter seguido Tank e Biggs e se matriculado na Academia como tanto queria. Que você deveria estar muito longe daqui.
– Camie...
– Longe de mim – ela disse quase em um sussurro, desviando o rosto e cruzando os braços sobre o peito.
– Você sabe que não me sinto assim. – Luke pousou as mãos sobre os ombros de sua esposa e tentou ignorar a maneira como ela enrijeceu sob seu toque. – Nós criamos uma boa vida, e é aqui mesmo que eu deveria estar. Agora vamos. Está ficando frio.

Camie não disse nada, mas deixou Luke a conduzir para o domo que marcava a entrada da fazenda. Sob o portal, Luke hesitou e olhou uma última vez para dentro da noite. Mas o Destróier Estelar – se foi isso mesmo que viu – não retornara. Após um momento, ele deu as costas ao céu vazio. Luke acordou com um sobressalto, instintivamente erguendo o corpo. Sua mão mecânica rangeu em protesto, ecoando o zumbido dos insetos que viviam nos gramados de Ahch-To.

Ele tentou afastar o sonho enquanto vestia sua túnica e seu casaco impermeável. Luke abriu a porta de metal de sua cabana, depois a fechou silenciosamente. A aurora já ia nascendo, com a palidez do dia como uma pérola no horizonte, flutuando acima do escuro vazio do mar. Os oceanos de Ahch-To ainda o impressionavam – uma infinidade de água que podia passar de calma e serena para um caos incontrolável a qualquer momento. Toda aquela água ainda parecia impossível de existir – ao menos sob aquela perspectiva, ele ainda se sentia um filho dos desertos de Tatooine.

Muito abaixo da encosta, ele sabia, as Cuidadoras logo se ergueriam para começarem outro dia, como fizeram por gerações e gerações. Para elas, havia trabalho a fazer, mas também para Luke – para as Cuidadoras, por causa de uma barganha antiga; para Luke, por sua própria escolha.

Ele passara a juventude detestando as tarefas em Tatooine; agora essas tarefas davam estrutura aos seus dias em Ahch-To. Havia leite a ser ordenhado, peixes a pescar e uma pedra solta para se colocar no lugar.

Mas não agora. Luke lentamente subiu os degraus até alcançar o gramado que permitia uma ampla visão do oceano. Ele estremeceu – o verão já estava quase no fi m, e aquele sonho ainda o acompanhava. Não foi um sonho qualquer, e você sabe disso. Luke puxou o capuz da túnica com sua mão mecânica, passando a de carne e osso pela barba. Ele queria discutir consigo mesmo, mas sabia que era melhor não. Era a Força que agia ali – ela havia se disfarçado de sonho para vencer as defesas que ele havia erguido. Mas seria o sonho uma promessa? Um alerta? Ou os dois? Tudo está prestes a mudar. Algo está se aproximando.